Como criar um QR Code de Pix estático com valor fixo
O QR Code de Pix que fica colado no balcão de uma padaria e o que aparece na tela do aplicativo do banco não são a mesma coisa. O primeiro é um BR Code estático: recebe quantos pagamentos vierem, nunca expira e pode ser montado por qualquer pessoa que tenha uma chave Pix — inclusive por você, agora, sem pedir nada ao banco. O segundo é dinâmico, tem vencimento e só o seu provedor de conta emite.
Este texto trata do primeiro caso, que é o que resolve 90% das necessidades de um negócio pequeno: um código impresso que recebe pagamentos, com ou sem valor definido.
O que é o BR Code, exatamente
O BR Code não é um formato inventado por gerador de internet. É o padrão que o Banco Central do Brasil adotou para iniciar pagamentos, construído sobre a especificação EMV® QR Code Specification for Payment Systems, da EMVCo — a mesma organização que padroniza o chip do cartão de crédito.
Na prática, o que vai gravado dentro do símbolo é uma cadeia de texto que começa com
000201 e parece uma parede de números sem separador:
00020126360014BR.GOV.BCB.PIX0114+5527999999995204000053039865802BR5913PADARIA CENTRAL6008VITORIA62070503***6304ABCD
Não há mistério nessa cadeia. Ela é uma sequência de blocos no formato identificador + tamanho + valor: dois dígitos que identificam o campo, dois dígitos dizendo quantos caracteres o valor ocupa, e o valor. O aplicativo do banco lê bloco a bloco, encontra a chave, o nome e a cidade do recebedor, e monta a transferência com tudo preenchido.
O que você precisa antes de começar
Três dados, e nenhum deles precisa ser pedido ao banco:
- Uma chave Pix ativa. Pode ser CPF, CNPJ, e-mail, telefone no formato
internacional (
+5527999999999) ou chave aleatória. A chave aleatória gera um código um pouco maior, porque tem 36 caracteres. - O nome do recebedor, com até 25 caracteres e sem acento. É o nome que aparece na tela de confirmação de quem vai pagar — o que dá a ele a segurança de que o dinheiro vai para o lugar certo.
- A cidade, com até 15 caracteres, também sem acento.
O limite de caracteres e a proibição de acento não são capricho: vêm do padrão. Nome com acento ou com mais de 25 caracteres faz parte dos aplicativos exibir caracteres estranhos e outra parte recusar o código com uma mensagem genérica.
O passo a passo
- Abra o gerador de QR Code de Pix. Ele monta o BR Code no seu próprio navegador — a chave que você digitar não é enviada para servidor nenhum.
- Preencha a chave Pix exatamente como ela está cadastrada no seu banco. Um espaço a mais no fim já muda o código.
- Escreva o nome sem acento, em até 25 caracteres.
PADARIA CENTRALfunciona;Padaria Pão Quente e Confeitarianão cabe. - Informe a cidade, também sem acento e em até 15 caracteres.
- Decida sobre o valor — o próximo tópico trata disso.
- Escolha o nível de correção de erro. Para código de balcão, M resolve; se for para uma mesa ou uma superfície que suja, suba para Q.
- Baixe em SVG se for para a gráfica, ou em PNG se for para uso digital. O SVG é vetorial: reimprime em qualquer tamanho sem perder qualidade.
- Teste antes de imprimir em escala. Abra o aplicativo do seu banco, escaneie e confira se o nome do recebedor está correto — sem confirmar o pagamento.
Valor fixo ou valor em aberto?
O campo 54 do BR Code carrega o valor. Ele é opcional, e essa escolha muda o
comportamento do código:
| Situação | Como configurar | Por quê |
|---|---|---|
| Produto de preço único, mensalidade, ingresso | Valor fixo | O pagador só confirma. Elimina o erro de digitação e a transferência a menos. |
| Caixa de gorjeta, doação, vaquinha | Valor em aberto | Cada pessoa decide quanto vai pagar; o mesmo código serve para todos. |
| Conta de restaurante, comanda | Valor em aberto | O total muda a cada mesa. Fixar o valor obrigaria a um código por conta. |
| Loja com muitos preços | Um código por produto, com valor fixo | Funciona bem em etiqueta de prateleira, mas exige regerar a cada mudança de preço. |
Há um detalhe que quase ninguém considera: QR com valor fixo envelhece. Se o preço subir, todo o material impresso precisa ser refeito. Em negócio com reajuste frequente, o valor em aberto costuma sair mais barato no fim do ano.
Os campos do BR Code, um a um
Conhecer a estrutura ajuda a diagnosticar código que não funciona. Estes são os campos que aparecem num BR Code estático:
| ID | Campo | Conteúdo |
|---|---|---|
00 | Payload Format Indicator | sempre 01 |
01 | Point of Initiation Method | 11 = estático, reutilizável; 12 = uso único |
26 | Merchant Account Information | contém o identificador BR.GOV.BCB.PIX e a chave |
52 | Merchant Category Code | 0000 quando não há categoria |
53 | Moeda | 986, o código do real pela ISO 4217 |
54 | Valor | ausente no código de valor aberto |
58 | País | BR |
59 | Nome do recebedor | até 25 caracteres, sem acento |
60 | Cidade | até 15 caracteres, sem acento |
62 | Additional Data Field | guarda o txid, o identificador da transação |
63 | CRC16 | quatro dígitos hexadecimais calculados sobre tudo que veio antes |
O campo 62 merece atenção. Ele guarda o txid, um identificador que
aparece no seu extrato junto com o pagamento. Com ***, todos os pagamentos chegam sem
referência. Com um texto seu — MESA07, MENSALIDADE, DOACAO —
todo pagamento feito por aquele código chega marcado, o que transforma a conciliação bancária em
leitura de extrato em vez de adivinhação.
O CRC: por que editar o código à mão nunca funciona
O último campo, 63, é um CRC-16/CCITT calculado sobre toda a cadeia anterior —
inclusive sobre os próprios caracteres 6304. É uma assinatura de integridade.
A consequência prática é direta: não dá para editar um BR Code no bloco de notas. Trocar o valor de R$ 50,00 para R$ 60,00 na mão, ou corrigir uma letra do nome, muda o resultado do CRC e invalida o código inteiro. O aplicativo do banco recusa com uma mensagem genérica de "QR Code inválido", sem dizer o motivo.
Se você recebeu um BR Code de alguém e quer conferir se ele está íntegro, cole no decodificador de conteúdo: ele mostra campo a campo e diz se o CRC confere.
Erros que fazem o banco recusar
| Erro | O que acontece | Correção |
|---|---|---|
| Acento no nome ou na cidade | Caracteres estranhos ou recusa | Escreva sem acento e sem cedilha |
| Nome com mais de 25 caracteres | Alguns apps truncam, outros recusam | Abrevie: use o nome fantasia curto |
| Chave com espaço no início ou fim | Chave não encontrada | Copie do aplicativo do banco, sem selecionar espaços |
Telefone sem o +55 | Chave inválida | Use o formato internacional completo |
| Valor com vírgula decimal | Valor lido errado ou recusado | O separador é o ponto: 50.00 |
| Código editado depois de gerado | CRC inválido | Gere de novo em vez de corrigir o texto |
De que tamanho imprimir
Um BR Code com chave de e-mail costuma sair na versão 8 ou 9 do símbolo — algo entre 49×49 e 53×53 módulos. É um código relativamente denso, e isso tem consequência no tamanho mínimo.
A regra prática é dividir a distância de leitura por dez. Para um código no balcão, lido a 30 cm, são 3 cm de lado. Mas com muitos módulos entra outro limite: cada módulo precisa de pelo menos 0,4 mm em impressão comum. Num símbolo de 53 módulos mais a margem, isso exige cerca de 2,5 cm — então os 3 cm da regra da distância cobrem os dois critérios.
Para um código projetado no telão de uma igreja ou de um evento, a conta muda completamente: a distância é a da última fileira. A dez metros, o símbolo precisa de um metro de lado. Use a calculadora de tamanho com o seu BR Code real para acertar antes de mandar imprimir.
E some sempre a margem branca de 4 módulos em volta. É exigência da norma do QR Code e a causa mais comum de código que não lê — principalmente quando o designer encaixa o QR dentro de um retângulo colorido.
QR estático x QR dinâmico do banco
| Estático (este) | Dinâmico (do banco) | |
|---|---|---|
| Quem emite | você mesmo | seu provedor de conta |
| Quantos pagamentos | ilimitados | em geral um |
| Expira | nunca | tem vencimento |
| Juros, multa e desconto | não suporta | suporta |
| Precisa de internet para gerar | não | sim, chama a API do banco |
| Uso típico | balcão, mesa, cartaz, doação | cobrança, boleto híbrido, e-commerce |
Para um comércio pequeno que quer receber sem maquininha, o estático resolve. Para cobrança com vencimento e juros, só o dinâmico. Não é uma escolha de qualidade — são ferramentas para problemas diferentes.
Onde o QR de Pix rende mais
O código funciona em qualquer lugar, mas o retorno depende de onde ele é colado. Três padrões que se repetem nos negócios:
- Onde existe fila. Em lanchonete e padaria, o Pix por QR no balcão deixa o cliente pagar enquanto a fila anda, sem ocupar a maquininha e sem problema de troco. O ganho é vazão, não economia de taxa.
- Onde a conta é dividida. Em bar e restaurante, o valor em aberto na mesa permite que seis pessoas paguem a sua parte ao mesmo tempo, cada uma no próprio celular. É o que encerra a mesa quinze minutos mais cedo no horário de pico.
- Onde o pagamento é por impulso. Em igreja e organização social, a contribuição acontece no momento em que a pessoa está sensibilizada. "Acesse nosso site depois" perde quase toda a doação.
Em todos os casos, uma frase curta ao lado do código multiplica a leitura. Um QR sozinho na parede não é lido: "Pague por Pix aqui" ou "Contribua com qualquer valor" dizem o que acontece ao escanear, e é isso que faz a pessoa levantar o celular.
Conciliação: fechar o caixa sem adivinhar
O ponto fraco do Pix por QR estático não é receber — é saber o que foi recebido. Sem nenhuma providência, o extrato mostra uma lista de entradas com nomes de pessoas físicas e nenhuma indicação de origem.
Duas medidas resolvem a maior parte disso. A primeira é usar o campo de identificação
(txid) com um texto diferente por ponto de recebimento: BALCAO,
MESA, DELIVERY. A segunda é gerar um código por unidade quando houver mais
de um endereço — o extrato passa a separar sozinho de onde veio cada valor.
Para volume alto, o caminho é a cobrança dinâmica pela API do banco, que devolve um identificador por transação. Mas isso já é outro patamar de operação: para o comércio que recebe algumas dezenas de Pix por dia, o txid no código estático dá conta.
Segurança: o golpe do adesivo trocado
O ataque mais comum contra QR de pagamento não tem nada de sofisticado: alguém cola um adesivo com o próprio código por cima do código do comerciante. O cliente paga, o dinheiro vai para o golpista, e ninguém percebe até a conciliação do fim do dia.
Três defesas que funcionam:
- Cole em superfície que denuncie violação. Placa de acrílico com o código por dentro é melhor que adesivo direto no vidro. Adesivo sobre adesivo é fácil de esconder.
- Confira o nome na tela do cliente. O BR Code carrega o nome do recebedor, e o aplicativo o mostra antes da confirmação. Um segundo de conferência resolve.
- Olhe o seu próprio código todo dia. Parece básico, mas é o controle que ninguém faz. Passe o dedo na borda: adesivo sobreposto tem relevo.
Do lado de quem paga, a regra é a mesma em qualquer QR Code: leia o que aparece na tela antes de confirmar. Tratamos disso em detalhe no artigo sobre o golpe do QR Code falso.
Perguntas frequentes
Preciso pedir esse QR ao meu banco?
Não, no modelo estático. Ele é montado a partir de dados que já são seus: chave, nome e cidade. O
banco entra apenas na hora de receber o dinheiro.
O mesmo código serve para vários pagamentos?
Serve. O campo 01 com valor 11 indica justamente um código reutilizável.
Ele recebe quantos pagamentos vierem, por tempo indeterminado.
Posso usar chave de CPF sendo empresa?
Pode, tecnicamente — mas o nome que aparece na tela do pagador será o da pessoa física, o que gera
desconfiança em compra de balcão. Para negócio, use a chave vinculada ao CNPJ.
O código funciona em qualquer banco?
Sim. O BR Code é padrão do Banco Central e todos os participantes do Pix leem o mesmo formato.
Dá para saber quem pagou?
O extrato mostra o pagador. Se você usar o campo de identificação (txid), consegue
separar por origem: um código por mesa, por unidade ou por campanha, cada um com a sua referência.
E se eu trocar de banco?
Se a chave for portada junto, o código continua valendo. Se a chave mudar, o material impresso
precisa ser refeito — motivo para preferir chaves estáveis, como o CNPJ, em vez de telefone.